Tecendo fios de prata e amores...












Me descobri bruxa de cozinha quando tinha uns 17 anos e desde então a bruxaria e os rituais elaboradíssimos perderam o sabor, não no sentido de não mais terem valia, mas a conotação que eu dava ( e a maioria dos que conheço que ainda dão), qd era adolescente.

Porque hoje vejo a bruxaria e o paganismo tão distante (embora não veja problema algum em ambos serem "trabalhados" ao mesmo tempo) quanto o céu da terra.

Bruxaria está por toda parte, por todas as culturas e povos...

Porque enxerguei a bruxa que era minha avó, com suas ervas e chás para dor de barriga e sua comida que a todos encantava, assim como no interior de Minas, na cidadezinha de onde vieram  meus familiares maternos e de como por lá existem benzedeiras e raizeros: curam com plantas e rezas, conquistam pelo café e o simples biscoitinho de queijo.

Parece que esse mundo "caipira" se tornou mais encantado que antes e parece que ninguém enxerga isso; me sinto uma caipira pós-moderna (como diz sempre a Márcia Frazão), que ama morar num sítio e pode colocar o pé no chão.

Tenho um desejo enorme de ter uma cozinha caipira com fogão a lenha e poder conversar na madrugada, tendo o fogo como companheiro, que esquenta a água para o chimarrão.

Tenho pensado tanto no meu tio zizinho, que é raizero: faz garrafada, tintura, chá. Os filhos não dão a mínima pra ele e eu, desde pequenina, corria atrás dele, só pra aprender mais e mais. Ele é espírita kardecista e isso contribui para que trabalhe como voluntário, curando as pessoas, assim como me curou qd eu tive otite.

Eu sempre achei o máximo ter essas duas pessoas tão próximas de mim!

E minha mãe, que manda os espíritos irem embora, fala "rasgado" com eles e tem um olhar fulminate; minha tia marlene é a espiritualista da casa e sempre me incentivou (ela joga tarot comigo e sempre que estou em sua casa, os papos variam tanto, mas sempre caem na bruxaria rs), entre tantas outras histórias minhas, da minha família que é única e intransferível, que faz ser quem eu sou...

Hoje minha mãezinha (era como eu me referia à minha avó) está com as estrelas e lembro tanto de suas histórias, que serão recontadas aos netos. Ela era tão bruxa que sabia que nunca conheceria meus filhos (Dhayaram nasceu um ano após sua "passagem"), assim como sabia que estava para partir, uma semana antes e avisando a mim, ao meu marido e à minha tia marlene.

Ela sabia e por isso deixou tudo pronto para quando chegasse o momento. E foi, como um passarinho...bateu suas asas e, durante o vôo, lembrou-se de sua filha-neta e me visitou se despedindo e deixando conselhos.

Eu a amo e continuarei a amar para sempre, ela me ensinou a adorar a Deusa, através de suas santas e sua forma de enxergar a vida.

Suas histórias sobre a festa que faziam na colheita do café e das cantorias em volta da fogueira em noite de lua cheia ( na lua nova, ninguém saía de casa, por causa da escuridão), de como a minha tataravó tratava os escravos: mesmo antes da abolição da escravatura, ela abriu mão de ter escravos e os tinha como empregados, com salário e tudo (inovador pra época e eu adorava falar isso nas aulas de história, sentia muito orgulho dessa atitude!).

Por vezes, quando estou na cozinha, sinto seu cheiro, escuto sua voz e isso me faz enxergar a verdadeira tradição que devo dar continuidade e isso é familiar; penso nos infinitos debates virtuais sobre bruxaria hereditária e etc's, que me cansa.

Dizem que isso não existe.

Será que ninguém percebe que em toda família, pagã ou não, existe uma tradição e que esta deixa de ser tradição quando não é passada para a geração seguinte?

Será que é tão difícil entender que bruxaria não é uma religião organizada e estruturada?

Que o não ter um método também faz parte da bruxaria?

Alô? Será que tem alguém me escutando?





11 CommentsChronological   Reverse   Threaded
filhotedelua wrote on Jan 5
tem sim... escutando e concordando em muitas coisas =)
lua7 wrote on Jan 5
De fato, tem muitas pessoas que levam a bruxaria para o lado do modismo, sem dar muita importância para o lado simples de ser bruxa, das primeiras sinto pena, das segundas, bato palmas, pois são raridade...
itbarreto wrote on Jan 6
eu estou!
vou fazer o pessoal do blog escutar também, estou te linkando lá! :)
templodedurga wrote on Jan 6, edited on Jan 6
Lua!!! Seja muito bem vinda ao meu espaço...

Quem sabe esse estado de simplicidade se torne contagiante?
templodedurga wrote on Jan 6
Inês, sinta-se à vontade para linkar e que bom ter vc por aqui!
itbarreto wrote on Jan 6
já linkei! coloquei nos textos recomendados! :)
gostei muito do que vc escreveu... pra mim essas pequenas coisas cultivam o ofício da bruxa.
dancarinalua wrote on Jan 6
Po, Po,Po.............eu chorei.....caraca, antes era a sarah q me fazia chorar, agora vc tb......Que lindo!!!!É tão bom ver essas coisas no caminho da gente né? Dá vontade de ficar conversando sobre isso hooooooooooooooooooooras!!Um dia a gente consegue juntar todos esse povo cozinheiro e multipleiro!!rsrs
namochu wrote on Jan 7
Que linda... Nao é nada dificil,mas se tens isso no coracao segue em frente com amor e calor...te entendo muito bem...nao precisa ser sectario, ter religiao, tanto faz a religiao do amor é a mais certa,nao tem erro
templodedurga wrote on Jan 8
essas pequenas coisas cultivam o ofício da bruxa.
E mais: é ir além de qualquer ato superficial, tendo a magia em todos os pequenos gestos e atos... = )
templodedurga wrote on Jan 8
Po, Po,Po.............eu chorei.
Essa não era minha intenção, viu? rsrs

E Yoni, agente já conseguiu reunir esse povo "cozinheiro e multipleiro", esqueceu? hahahaha

Só falta colocar o Caldeirão para borbulhar!!!

Como diria a Strega Nona: "Borbulha, borbulha, caldeirão..."
templodedurga wrote on Jan 8
namochu said
Nao é nada dificil,mas se tens isso no coracao segue em frente com amor e calor..
e a vc tb!!! Bom, sei que vc deve mesmo entender, já que está aí, do outro lado do Mundo, seguindo o seu coração!
Bjs...
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